UM GUIA


São Paulo, a cidade e sua arquitetura: Um guia

 

São Paulo é conhecida pela pujança econômica e, também, pela característica que normalmente acompanha a paisagem dos grandes centros industriais: certo desprezo pelo idílico, ou mesmo pelo belo. Como identificar a beleza em um conjunto tão complexo e com tantas camadas como esta cidade? Mais, o que podemos chamar de belo em uma cidade que em um século foi multiplicada por vinte? É sempre relativo e sempre uma descoberta.

Cada um de nós tem suas referências do que lhe agrada nessa imensa massa construída. Não ao acaso, o espírito moderno foi enxertado no país a partir daqui; para a cidade de urgência produtiva, a beleza também está na exatidão do necessário, um galpão industrial pode ter a mesma imagem terna de um palacete burguês. No entanto, São Paulo não ficou alheia aos grandes temas da arquitetura internacional, sejam formais, técnicos ou funcionais. A prosperidade econômica veio acompanhada de todos os dramas da sociedade industrial, mas também de várias de suas vantagens, como o cosmopolitismo e a cultura densa e diversificada trazida pelos múltiplos ciclos migratórios. Talvez por essas questões até hoje a cidade não tem, embora tenhamos algumas excelentes publicações sobre a arquitetura moderna e contemporânea, um guia que abarque exemplos do acervo remanescente de toda a sua história. Este é o objetivo de nosso guia. O que não foi nada fácil.

Primeiro, porque o registro da arquitetura produzida na história de São Paulo não pode estar alheio à compreensão da expansão extraordinária da cidade e sua infraestrutura. Portanto, optamos por um guia que apresentasse o desenvolvimento de suas linguagens construídas, o objeto arquitetônico e a própria mancha urbana. Todo o processo de realização deste guia foi norteado pela ideia de revelar o desenvolvimento urbano histórico e as arquiteturas que ele promoveu.

Como qualquer guia, este também é parcial – é sempre uma seleção questionável. A equação entre o desejável e o possível parece nunca ter uma solução plenamente satisfatória. Dos mais de 400 edifícios levantados, selecionamos 284. Foi cruel. O leitor certamente encontrará ausências imperdoáveis; cada um da própria equipe que o editou tem as suas. Em contrapartida, também encontrará exemplos de arquitetura que não se encaixam nos cânones da boa arquitetura. De tal forma, não comparece nesta edição o ginásio do Clube Paulistano de Paulo Mendes da Rocha, mas, por outro lado, ela apresenta conjuntos habitacionais prosaicos ou mesmo questionáveis como resultado arquitetônico. Ambas as situações devem ser creditadas às posturas assumidas pela equipe. O primeiro trata-se provavelmente do mais completo exemplo da linguagem paulistana, o programático, ousado tecnicamente e de desenho espetacular em sua simplicidade. Não está no guia porque as alterações posteriores na obra soam criminosas, tiraram-lhe a leveza, o arrojo da cobertura suspensa. Além do mais é fechado ao público.

No caso da presença dos conjuntos habitacionais, igualmente dos galpões industriais, mais do que salientar aspectos técnicos inusitados ou mesmo implantações diferenciadas – o que certamente acontece em vários casos –, queremos fazer o registro das diversas etapas da cidade, suas políticas públicas, suas redes e, principalmente, registrar a produção que caracteriza a metrópole superativa. Ainda no tema habitação é necessário um esclarecimento. Arquitetura Moderna paulista é pródiga na produção de casas, em quantidade e qualidade, temos publicações expressivas sobre o assunto, especialmente “Residências em São Paulo: 1947-1975”, de Marlene Acayaba. No entanto, poucas aqui comparecem. O motivo é que, por questões quantitativas e de adensamento nas respostas arquitetônicas, optamos por não colocar casas em qualquer capítulo, dando prioridade aos edifícios de caráter coletivo, seja no uso ou na fruição na paisagem da cidade. Porém, algumas exceções fizeram-se necessárias, ou por tratar-se de caso emblemático, ou para situar algum profissional, ou pelo posicionamento geográfico.

No tópico das obras presentes questionáveis também podemos colocar o Quartel do Parque Dom Pedro II. Seu estado de conservação é tão lastimável que parece não fazer sentido colocá-lo em um guia. Aqui, o caso foi o inverso do Paulistano. Optamos pela permanência como forma de denúncia. Um equipamento daquele porte, naquela região e no estado em que se encontra é digno de um registro, ainda que negativo.

A associação entre a arquitetura produzida e o desenvolvimento urbano foi tratada por meio do mapa que abre cada capítulo. Eles foram desenvolvidos a partir de intensa pesquisa a fontes bibliográficas e a inúmeros mapas históricos, sobre os quais foram sobrepostas as infraestruturas de produção do urbano, especialmente as de circulação. Desta forma o leitor pode não só acompanhar o espalhamento da cidade e as infraestruturas que lhe foram favoráveis, mas também, entender cada edifício no contexto e tamanho da cidade naquele momento e verificar as políticas urbanas que estão determinando o crescimento da cidade, para onde e com qual urbanidade inerente.

Os mapas são plataformas temporais (ou de um tempo na cidade) das condições urbanas que são dadas para a montagem da superestrutura edificada. Mostram a sobreposição das infraestruturas, assim podemos ver a montagem da rede de bondes nas três primeiras décadas do século 20 e seu posterior apagamento com a implantação da rede de ônibus, ou a expansão dos transportes por trilhos na passagem para o 21. Os demais mapas que compõem o guia, tanto o encarte quanto os detalhes no miolo da edição, prestam-se a facilitar a chegada e a visitação em percursos.

Este guia de arquitetura de São Paulo está dividido em cinco capítulos divididos em função das grandes mudanças ocorridas na cidade definindo, em termos, novas condições urbanas. Cada capítulo é aberto por uma obra emblemática do período. Não só emblemas, consideramos que a fruição destas cinco obras na paisagem e no uso da cidade são especialmente significativas para contar que espécie de cidade que é São Paulo, e como sua sociedade a constrói, em cada momento.

Jorge Bassani
Francisco Zorzete